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                                   SERTÃO,  O RESGASTE                                                                                               Embora sem raízes interioranas, o cheiro do mato verde,  da terra molhada,  me fascinavam. Isso sem contar com o cheiro da bosta do gado, aquele cheiro cheiroso Não via a hora de começarem as férias e me tocar rumo ao sertão brabo...

Chegava na boquinha da noite, após enfrentar viagem de trem, o famoso maria-fumaça, e cavalo.
          No primeiro cantar do galo ,  a cozinha já exalava o aroma do café fumegante, adoçado com rapadura, dos grãos torrados em enorme alguidar e pilados naquele  pilão antigo, feito de maçaranduba, que dura muito mais que a vida de um jegue. Era um convite irrecusável a pular da rede e participar daquela rodada tão alegre. Quebrado o jejum, com cafezinho simples, corria para o curral, levando uma canecona de alumínio.
Aí eu me esbaldava. Leite mugido, quentinho, espumoso, tirado na hora.
Quem não é acostumado, convém se embrenhar logo no mato e se preparar para o efeito. Primeiro vem uma dor de barriga fininha, avisando que vai descer alguma coisa.
 Logo logo a encomenda chega,  aos montes. Limpeza geral dos intestinos. Ufa, que alívio.
O maior problema, pra quem não sabe, é, como fazer a higiene ? O produto mais utilizado é o sabugo de milho ( o matuto já o leva no bolso ), e outras folhas. Já foi relatado que um cidadão da capital, errou na escolha das folhas e se limpou com cansanção ou, como chamavam, com a urtiga.. O grito ecoou no sertão adentro,  parecendo ataque de onça. Correria geral. Os matutos se armaram e foram socorrer o capitalista, pensando em algo mais grave...
Tava lá o coitado todo breado, bunda de fora, toda avermelhada e cheia de calombinhos, parecendo picadas de abelha. A risadeira geral levou o homem a correr no mato e, dizem, nunca mais apareceu...
O leite tinha destinação certa. Um pouco para  o consumo diário, após fervido e o  resto, para fazer coalhada e  queijo. Falando em queijo...
O café da manhã sempre no mesmo padrão: beiju, daqueles bem grossos e com muito coco, cuscuz de milho coberto de nata, cará e batata doce. Sim, um panelão de coalhada e bastante queijo, daqueles  que quase se desmancha na boca.  Um banquete. 
Não havia distinção de classe social.  Todos juntos, sem cerimônia. A única diferença visível era o canto em que o patrão se sentava. Só. 
O momento não era somente de comilança. Entre uma colherada e outra, traçava-se o roteiro do dia. Bem dizer um comitê de gestão. O coronel Altamiro não dava ordens, dizia apenas o que deveria ser feito, simples assim. E nem perguntava o que deixou de ser feito do dia anterior. Alguém haveria de ter coragem de deixar tarefa pela metade ? Nas várias férias que passei na fazenda, nunca vi o coronel dar um grito em qualquer pessoa. Era mais respeitado que temido. Bastava um olhar....
E o café da manhã ?  Tudo era devorado sem cerimônia, podia-se repetir o quanto o estômago aguentasse. Quando Euclides da Cunha,  cunhou a frase " O sertanejo é, antes de tudo, um forte ",  acho que foi no sentido  literal,  porque  no comer e trabalhar, havia o excesso, o exagero.  A academia do sertão é o dia-a-dia pesado, onde as  " gordurinhas localizadas " se evaporam em minutos, sumindo por encanto. No linguajar de hoje, diria que os matutos tinham o corpo sarado, barriga tipo tanquinho, sem depender de dieta. Energia ? Tinham de sobra, com capacidade para alumiar uma cidade...
Acabada a reunião, ou melhor, o desjejum, todos partiam para mais um dia de trabalho. Executavam as tarefas com muito amor, tudo caprichado, e gostavam do que faziam. Se ajudavam na maior alegria, como se tudo aquilo fosse pura diversão. Pegar um boi brabo fugido nas caatingas era com eles mesmos. Tá chegando a hora do almoço, outro melhor momento. Plim, plim...
Antes, banhar os animais e dar uns mergulhos e braçadas nas águas morninhas do rio. Algazarra geral, parecendo um bando de matracas.
Na cozinha, dona Dorotéia tendo à disposição quatro caboclinhas, caprichava na  finalização da comida. E haja panelas no grande fogão de barro, movido à lenha. Conferindo: feijão, temperado com banha de porco e generosos pedaços de carne salgada,  arroz com um pouco de leite, três capões cevados, bode cozido, sarapatel, buchada, ufa, haja estômago pra tanta comida. Mas havia e não sobrava nada. Aliás, representava desrespeito voltar sobras do almoço. Acabou ?  Não. !, Tinha a sobremesa: rapadura, batida de coco, alfinim, banana, abacate...
Cabe o registro, nenhum alimento era comprado. Nenhum. Da serra, vinham o café em grão, as frutas e os produtos do engenho. 

Comentários

evandro show disse…
Espero receber comentarios, favoraveis ou criticas. Meu abraço

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